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A culpa e o mal-estar

Elaine Andrade 3 min de leitura

O sentimento de culpa está associado às questões morais, éticas, sociais e culturais. Pode ser positivo e indicador de saúde porque regula e equilibra as relações dentro de um padrão de respeito e liberdade entre os envolvidos. A culpa excessiva, por tudo e com todos, entretanto, pode indicar que algo não vai bem. Em seu excesso causa sofrimento e mal-estar.

O sofrimento, em consequência da constante culpa, pode levar o sujeito a sempre tentar agradar a todos com quem se relaciona (família, amigos, colegas de trabalho, o parceiro ou a parceira afetiva/o) numa expectativa de reparar a culpa e aliviar o próprio mal-estar. Em geral, pessoas assim se sentem frequentemente cansadas pela energia que investem ao sustentarem relações em que se colocam como pilares e reparadoras. Mas neste caso, o sofrimento ganha novos contornos e é também aliviado pela dinâmica compensadora que se busca nas relações.

A culpa funciona, então, como uma prisão que recoloca o sujeito no centro do mal-estar em relação ao Outro, à família, à sociedade, à religião, e por aí vai. Tudo pensado e feito como forma de remediar a própria culpa. E como é impossível satisfazer todos e ter controlo de tudo, a culpa retorna, o ciclo se repete.

Mas essa culpa é real ou fantasiada? A quem devemos de facto? Somos realmente responsáveis por toda a insatisfação que o Outro nos expõe? A culpa que carregamos é de facto só nossa? Pensamos e refletimos sobre isso ou simplesmente aceitamos? Tudo nos deixa culpados?

Ao que alude esta culpa? Pensemos um pouco sobre isso. O que tentamos reparar nas nossas relações? Assumir a culpa de tudo é diferente de ser responsável pelas nossas ações. E é muito diferente de aceitar um lugar de culpa numa dinâmica relacional onde sua função é a de servir o Outro.

A culpa faz parte da vida humana, em alguma medida ela pode ser importante e reguladora. Mas é quando, em excesso, ela se instala como forma primária de se relacionar e acaba por se tornar uma espécie de melancolia, aprisionamento, onde o sujeito perde a noção de si e vive em função da fantasia de reparar a culpa.

Esse aprisionamento gera também a sensação de pouco controlo e poder de escolha. Uma sensação de estar preso e não conseguir fazer diferente.


Um processo terapêutico pode ajudar o sujeito a elaborar suas ilusões, rever suas frustrações e reconciliar com seus desejos, medos e dores. Isto pode levar algum tempo e depende da capacidade de cada um se haver com as próprias des-ilusões.

Entender que é parte responsável pela culpa e consequentemente pelo próprio mal-estar ajuda a fazer uma movimentação diferente à medida que não precisa mais valer desse desprazer e sofrimento para adiar a verdadeira busca de contentamento na vida.

No final, seu mal-estar e culpa são mesmo seus. Carregá-los eternamente, ou não, pode ser também sua escolha.

Elaine Andrade

Elaine Andrade

Psicóloga Clínica de orientação psicanalítica, no Porto.

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