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2021 e a esperança

Elaine Andrade 2 min de leitura

A mudança de ano e a mudança em nós

Após um ano tão difícil, no qual nos vimos obrigados a estar mais isolados, onde a morte e o medo do morrer nunca estiveram tão excessivamente presentes seja nas nossas conversas, seja na mídia…longe ou perto estávamos todos afetados por todo um conjunto de sentimentos angustiantes, desconhecidos, invasivos. Houve quem negasse o vírus, sua periculosidade e formas de contágio. Talvez num desespero inconsciente de escapar deste cenário avesso e estranho.

Hoje, com a promessa das vacinas, 2021 vem com um sopro de esperança. Esperança dos encontros, dos abraços, das festas, das danças, dos beijos.

Um desejo de voltar ao normal, como se normal fosse a realidade anterior à pandemia. O normal aqui parece mais vir associado à rotina e ao que predominava, como se a existência estivesse lá, intacta e saudável à nossa espera. De fato, a pandemia é efeito de uma patologia. Mas confundimos a patologia e nossa ação frente a ela. Talvez tenhamos tido atitudes patológicas perante a pandemia, mas isso não quer dizer necessariamente que sejamos patológicos.

O normal e o patológico é uma fronteira ténue, subjetiva, e por vezes de difícil categorização e diagnóstico quando falamos de saúde mental. E eu ouso dizer que em muitos momentos desta pandemia aquilo que nos manteve sãos pode ter sido justamente não nos adaptarmos a este cenário. Sermos reativos, tristes, angustiados, entediados, zangados seria mesmo patológico?

A mudança de ano traz a ilusão do recomeço, de uma nova possibilidade. E é bom! Que a gente ilusione mais, imagine mais, projete mais o que desejamos. E este desejo tem uma força potencializadora que nos faz agir, pensar, sentir a favor disso. Mas também há em nós forças potencializadoras, a depender das nossas vivências, estrutura psíquica e vínculos sociais. Mudou alguma coisa no mundo, e em nós também. Mudar também é normal.

Pois… se calhar é tempo de olhar pra dentro, aceitar o desafio e re-construir nossas habilidades para seguir a vida com vida.

Não há um normal pra voltar, há vidas para continuar. E esse período não nos vai sair como um objeto que se descarta. Todo o isolamento, as ambiguidades de afetos, pensamentos e comportamentos vividos neste período permanecerá em nós na memória consciente e inconsciente. Importa saber com qual qualidade vamos seguir. E só saberemos também com o tempo.

A esperança é já um bom começo.

Elaine Andrade

Elaine Andrade

Psicóloga Clínica de orientação psicanalítica, no Porto.

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